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Entendendo a Dança 4



As primeiras manifestações de dança segundo as Idades
Texto escrito por Eliana Caminada

As primeiras manifestações de dança segundo as Idades

"A Dança nasceu da necessidade de expressar uma emoção, de uma plenitude particular do ser, de uma exuberância instintiva, de um apelo misterioso que atinge até o próprio mundo animal."

A análise cronológica sintetiza o que foi explicitado nos capítulos anteriores, tendo sempre presente duas realidades até certo ponto antagônicas:
. a linguagem gestual imitativa (mimética) é a mais antiga forma de comunicação do ser humano, podendo remontar a milhares de anos em suas primeiras manifestações.
. por primeiras manifestações, não devemos considerar somente as Idades, já que se registram no seio de australianos, africanos, neozelandeses, índios, entre outros, alguns povos que ainda guardam suas mais antigas manifestações.
Considerando a tabela cronológica de Curt Sachs e juntando a ela as idades aproximadas de acordo com a Enciclopédia da Civilização e das Artes de B.M.Ugolotti, podemos dividir as primeiras manifestações de dança, em dados gerais, em seis períodos:
                     Período paleolítico inferior - 1000.000 anos a.C. - primitiva cultura básica: dança circular sem contato.>
                     Período paleolítico médio - 350.000 a 75.000 anos a.C. - culturas básicas médias: pigmeus (dança circular sem contato e danças animais) e pigmóides (dança circular sem contato e danças convulsivas).
                     Período paleolítico superior - 75.000 a 15.000 anos a.C. - últimas culturas básicas: tasmanóides e australóides (dança circular sem contato, danças animais, danças serpentinas e danças sexo-lunares).
                     Período mesolítico - 15.000 a 10.000 anos a.C. - primitivas culturas de tribo: totemistas (danças de máscara, danças animais, danças circulares com contato, danças sexuais masculinas) e primitivos agricultores (danças de máscara, danças circulares corais, danças lunares e danças fúnebres).
                     Período protoneolítico - 10.000 a 3.000 a.C. - culturas de tribo médias: cultura do animal de cornos (danças circulares, danças animais, danças de par) e última cultura agrícola (danças de vários círculos, homens e mulheres dançando em linhas opostas).
                    Período neolítico - até 1.000 anos a.C. - Idade do metal: senhorial e últimas culturas de tribo: campesina (danças mistas de pares, dança de abraço, dança de galanteio, dança do ventre).

Se a essa tabela acrescentarmos movimentos e formas praticadas pelo homem para se comunicar, sobreviver e raciocinar, podemos idealizar e estruturar, mais ou menos, a evolução cronológica da dança, como já foi colocado no primeiro capítulo. O homem "técnico” do paleolítico inferior, já conhecia as figuras do círculo sem contato quando aprendeu a dominar algum jogo e a inventar um tipo de arma para se defender: a pedra de sílex amarrada à extremidade de um pau.
Mesmo lutando pela sobrevivência o homem, em algum momento, dirigiu sua atenção para uma atividade imaterial e tornou-se artista. A Dança nasceu da necessidade de expressar uma emoção, de uma plenitude particular do ser, de uma exuberância instintiva, de um apelo misterioso que atinge até o próprio mundo animal, embora, só com o homem ela se eleve à categoria de arte, em função de sua consciência.
No seu primórdio a dança foi uma manifestação naturalista. À repetição sincronizada de gestos, inicialmente desordenados, pode-se considerar como a primeira técnica desenvolvida pelo ser humano. Repetida, usando mais elementos e uma gradativa estilização, a seqüência de movimentos foi se constituindo numa "coreografia", como testemunham vários gráficos.
No paleolítico médio os dois tipos básicos de homem estão desenvolvidos: pigmeus extrovertidos, com visível talento para dança e pigmóides introvertidos, que privilegiavam a dança em desarmonia, embora não se tenha notícia de um indivíduo sequer que não possua algo das características opostas; no paleolítico superior observaram-se formações individuais e corais, o círculo foi mantido quase sem nenhum contato corporal entre seus integrantes e a forma serpentina foi introduzida.
A divisão dos dois mundos ficou evidente: o sem imagem, extático, lunar, e o outro, sensorial, solar e imitativo.
O período mesolítico reafirmou essa dualidade: povos patriarcais de religiões monoteístas introduziram danças sexuais masculinas às suas danças cada vez mais naturalistas, excluindo as mulheres, as quais só foi dado assistir, das cerimônias. Povos formados por primitivos agricultores acrescentaram às primitivas danças circulares a execução coletiva usando os círculos dobrados, as danças lunares e as fúnebres com as máscaras que as acompanhavam.
A fixação do homem à terra produziu, na dança, consideráveis modificações. O trabalho feminino passou a ser valorizado, surgiram as primeiras formas de matriarcado com sua mitologia lunar. Pela primeira vez os dançarinos se agruparam em linhas e a choça passou a ser retangular. A noção de alma, até então ausente, fortaleceu o culto aos antepassados, o xamanismo e o sepultamento de mortos. Nessas culturas, de desenhos abstratos e geométricos, o naturalismo esteve ausente. O espírito que as movia não era observativo, mas meditativo; os sonhos, não a realidade, lhes inspiraram e deram forma.
Na transição para o neolítico houve o início da domesticação de animais; cuidava-se do gado, o arco e a lança, e mais tarde a massa, foram as armas usadas. Ritos de circuncisão foram introduzidos, assim como danças de par sem contato e danças de armas. As casas já se apresentaram retangulares, a tendência para o patriarcado se instalou firmemente. O canibalismo, o fetichismo e a imagem da caveira foram introduzidos nas cerimônias rituais. Os círculos se triplicaram, surgiram as espirais simples e duplas, somando-se a motivos ornamentais e geométricos. Homens e mulheres dispostos em duas linhas, uma de frente para a outra, já foram encontrados convivendo com as danças de saltos altos, que visavam promover o crescimento da semente.
O período neolítico, que precede a chamada “Idade dos Metais”, já começou a apresentar os dois tipos de cultura distintas, mas que se completam e que só existem, uma em função da outra, a cultura campesina e a senhorial, ou seja: a dança dos virtuoses pagos que se exibem aos que possuem riqueza.
A cultura campesina foi responsável pela ênfase da sexualidade através da representação mimética do galanteio e da sedução. A dança coral, em que uma linha de homens se opunha à de mulheres, começou a apresentar figuras que se juntavam e se dividiam em complicados labirintos.As danças femininas eróticas, em geral solistas, tornaram-se muito importantes.
Na passagem do puramente devocional e social para o profissional e teatral, as danças fixaram as divisões de trabalho e as distinções marcantes entre a cultura da classe aristocrática urbana e a dos que recebiam para realizar algo. Admite-se que cultura senhorial conduziu à dança espetáculo dos orientais, enquanto a dança campesina pura levou à dança popular ocidental.
As danças de procissão e as circulares nunca desapareceram, mas o neolítico ficou caracterizado pelas danças de pares, abraçados ou não, usando cada vez mais o abstracionismo, o domínio da técnica, tornando-se, finalmente, uma dança de exibição, ou seja: um entretenimento.
Ao chegarmos à dança espetacular – dança espetáculo - encontramo-nos diante das culturas superiores que, com suas divisões em classes e castas, destruíram a unidades sociais dos povos, segregando e separando as diversas atividades humanas.
Enquanto apenas fenômeno emocional a dança do homem pode ser tão livre quanto a do chimpanzé. Como ato religioso, submetida a regras mantidas de geração para geração, isto não aconteceu. Impulso criador, observação estética, organização e construção harmoniosa e inteligente, a devoção fez da dança uma arte, embasada sobre a idéia de recompensas materiais: de um lado o artista que ganha para trabalhar, de outro o espectador que paga e usufrui do que assiste.
Era o fim da improvisação. Artistas e espectadores passaram a zelar pela exatidão das cerimônias rituais e pela manutenção do que já se tornara uma “tradição”, trazendo consigo a idéia de ensino e de escolha.
Regulamentada, elaborada, narrativa, remunerada, a dança chegara ao drama.
O drama surgiu das necessidades fundamentais do homem, desde o seu primórdio, e provavelmente seguirá cumprindo este papel enquanto ele, homem, existir. Ao representar a humanidade procurou resolver seus momentos de maior tensão em termos humanos, lançando mão, para isso, de todas as expressões artísticas: artes plásticas, música, palavra e dança; surgiu também em função de capacidade imaginativa mais acentuada de um membro da comunidade e do seu talento para interpretar os anseios da sociedade, sendo elevado, naturalmente, à função de seu porta-voz.
Tanto quanto o homem simples de hoje, o homem primitivo gostava de narrar fatos de sua tribo, suas conquistas e suas experiências. Mesmo quando já abstratas como forma, as danças continuaram a cumprir o papel de narrar, com emoção, esses momentos distantes, em progressão lógica, fazendo com que o homem sentisse ali, vigorosamente, a presença do que já havia acontecido como se estivesse ocorrendo de novo.
Diz o crítico John Gassner em seu livro “Mestres do Teatro”:

 “Desejando e mais, precisando alimentar-se, conquistar e defender-se de inimigos e outras necessidades básicas, o homem logo aprendeu a tentar realizar esses desejos através da dança, e assim seguiu até que a dança pantomímica se tornou a mais acabada das formas primitivas de drama e o dramaturgo se tornou um coreógrafo.  O dramaturgo primitivo ou coreógrafo, formula e conduz a pantomima intelectualmente, ocupa o papel de mecânico ao criar os primeiros adereços cênicos rústicos, de sacerdote que ensina o homem a orar, ou de alguém que coloca Deus, a natureza ou o que quer que se queira chamar, à serviço do homem, associando além disso, essa oração ao trabalho... Este sacerdote é ainda um feiticeiro exorcista, um curandeiro e um filósofo social, na medida em que organiza a representação da atividade da comunidade, ampliando a realidade”.

Longe das culturas básicas, em que as próprias mães se incumbiam de ensinar a seus filhos os ritos cerimoniais, os profissionais dançarinos eram enviados a lugares famosos por ensinarem a dançar, ainda que distantes. Num processo rápido de conversão, essas danças foram revelando a habilidade de cada aprendiz, tornando-a uma aquisição pessoal, consciente e reconhecida, mesmo que por trás perdurasse, e assim foi por bastante tempo, o espírito religioso que ensejou a execução dançada.
Típicas virtuoses, as bailarinas dos cultos foram afastadas da família e do trabalho doméstico e sustentadas para se dedicarem somente ao templo e à arte; as virgens, ao amadurecerem, se convertiam em propriedade dos sacerdotes, que se apresentavam como representantes do deus aos quais haviam passado a pertencer. Até sexualmente. Consultar o ballet  “La Bayadère” (ver nota de rodapé nº 5).
Nas altas culturas da Idade do Metal ficou clara a separação da sociedade em duas classes: a que praticavam a dança senhorial, dos donos do metal, e a dança “proletária”, praticada a serviço dos detentores da riqueza.
Conclusão:
Os elementos que foram resumidamente analisados acompanharam o desenvolvimento do homem desde o Paleolítico até nossos dias. Vistos de maneira primitiva ou já completamente estilizados, compõem as encenações dançadas, quer nas suas manifestações livres e populares, quer inseridos nas formas cênicas mais sofisticadas e elaboradas.


Eliana Caminada é Orientadora e consultora, escreveu vários livros sobre dança, e responde pelas disciplinas História da Dança e Técnica de Ballet Clássico no Centro Universitário da Cidade. Professora convidada no projeto "Sons Dançados do Brasil" do Centro de Artes Calouste Gulbenkian, colabora com o jornal "Dança, Arte & Ação" e participa, como palestrante, jurada ou pedagoga, de festivais e mostras de dança por todo o Brasil. Foi bailarina do "Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro", primeira-bailarina do "Balé Guairá" e solista do "Ballet da Ópera Estatal de Munique".
Ela também edita o site www.elianacaminada.net
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